segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Mesmo não acreditando


O destino                             

O destino eram                           
Os homens escuros                    
Que assim lhe disseram:             

- Tu esculpirás Seu rosto     
de morte e agonia                

Sofia de Mello Breyner Andresen, Cristo Cigano 




Paula Rego, the dance




O mundo desarvorado
numa aventura de homens loucos
investidos providencialmente 
pela esterilidade das suas ideias:
nas paredes alastram dores
capilares num rendilhado como teia 
prenunciadores 
dos dias futuros de ruína

A casa toda
vibra de uma estranha emoção
Sento-me no chão
térreo onde fico separadodas coisas 
suspensas na ordem mundana
nas paredes da vida

Olho o relógio do tempo e vejo
o movimento ainda inteiro
o ritmo atómico dos ponteiros
vindo das profundezas
e o susto golfa adrenalina
até que o coração se sincroniza
na cadência original


Mesmo não acreditando 

uma prece um sussurro
pode mudar o mundo
- quem sabe - 
se a folha só 
que no desamparo nega 
o destino cai 
num afago de mãos


         hajota

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Em Pessoa

imagem Google






Entre o sono e o sonho,
Entre mim e o que em mim
É o que eu me suponho,
Corre um rio sem fim.

Fernando Pessoa



















Criatura humana, tão humana que usa chapéu!,
moral e responsável como quer, sem descaminho
percorre em delírio e livre arbítrio
as calçadas da Brasileira e do Martinho.

Personagem criadora de personagens,
indivíduo de múltipla individualidade,
palmilha certezas sem sair da cidade,
finca-se no verso, rio das suas margens.

Sabendo da ignorância do presente
conjuga o verbo em todos os tempos,
no infinito, para não se afogar no poente,
para ser Pessoa de hoje e de sempre

Dizem que morreu há oitenta e um anos,
hoje, de cólica hepática.
Como assim, se magotes trepam a Garrett
e se sentam à sua mesa pelo aroma dum verso!?

30nov2016


                            hajota

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Nota: não foi editado, na data do óbito de Fernando Pessoa, como era minha vontade, por razões de "logística" .  

terça-feira, 15 de novembro de 2016

A Lua era Sol

Apesar das ruínas e da morte, 
onde sempre acabou cada ilusão, 
a força dos meus sonhos é tão forte, 
que de tudo renasce a exaltação 
e nunca as minhas mãos ficam vazias. 


Sophia de Mello Breyner Andresen




http://www.dn.pt/sociedade/interior/hoje-e-noite-de-superluaha


Sem saber que era o luar
lancei as mãos ao sonho,
ambas, na ambição do momento.
Único!

Toquei-lhe na pele, 
no contorno
do ventre prenhe de leite, 
derramado, 
a brilhar ao de leve: a Lua era Sol!

A Lua cheia de Sol
debruçou-se no meu peito
doído, sonhei ontem

Ao acordar abri a janela
e procurei-a no azul. 
Era Sol que se via, hoje:
raios-versos dum poema,
brilhante. Por ser dia.


hajota



sábado, 29 de outubro de 2016

Andei perdido



Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes
Ergue-se a lua como a minha Sina

Álvaro de Campos, quadra de Opiário






Salvador Dali, a desintegração da persistência da memória







Andei perdido no veneno das bagas
a suar o frio do loureiro traiçoeiro

O horizonte tão largo de anjo 
- olhos de desejo -
reduzido apertado
Apartado 
sem asas eu nu à mercê do destino
Fui ao centro de mim como nunca fiz

Peixe de olhos fixos sem mar 
sem chorar
vi-me estiolado na pedra fria  
Tiraram-me a escama que refulge a noite
mas não foi fatal

Puseram a mão no meu coração
mas a alma desalmada não viram

Sobrevieram rosários de mistérios
dolorosos e delírios gozosos 
Bastavam os olhos da noite e do dia
fechados 
e era a cor de salmão que se abria
em azuis 
Páginas e páginas impressas
letra redonda escorrendo as águas
passadas 
do rio sem tempo marcado

Inexplicavelmente depois pintura
a povoar paredes de galeria
Eu espantado:
El Greco Pieter Brugel o velho renascentista
Rubens de feminilidades barrocas   
e Goyas de romântica estética
Onde é que eu vi isto?

Em terno sustento voltei à tona
uvas abrunhos  maçãs "forever young"
Desalmado mas com coração!


hajota


segunda-feira, 17 de outubro de 2016



Andei arredado destas lides por motivo de saúde. 
Visitei durante este período conturbado alguns dos amigos, mas sem ânimo. Sem rumo nem consistência. Não houve da minha parte intenção de discriminar ninguém. Muito grato a todos.

Para desanuviar trago aqui um pequeno texto (prosa) que é parte de estórias da adolescência.




Imagem Pintrest




Regalavam-se de costados ao sol, como se fossem príncipes nas praias da Côte d’Azur, a gozar em plenitude os favores que Deus lhes havia concedido. As horas de torreira eram aproveitadas para aquecerem o sangue e suprirem carências de vitamina D que tanta falta faz para suportar com otimismo e elegância o inverno,  do ano e o derradeiro, no tempo futuro: o calorzinho mantem o metabolismo em perfeito funcionamento de modo que artrites, artroses, osteoporose e outras maleitas de ossos nem vê-las. E a corzinha da pele? Um encanto, quando é hora de se mostrar a timidez é coisa que se evapora.
Eram as cores resplandecentes que atraiam a malta que de maneira nenhuma podia desperdiçar a opulência nas horas de canícula, de mormente depois de almoço. Azuis, vermelhos, amarelos e verdes um apelo irrecusável.
Quem vai para o mar aparelha-se em terra, reza o adágio popular, ninguém ia de mãos a abanar, sem que fosse equipado a preceito. A aproximação ao local de observação era feita com as maiores cautelas para evitar que fosse desfeita a espontaneidade que aqueles seres viviam. Se eles pressentissem algo em redor, o bulir de uma folha pisada, o pigarro da emoção ou um passo mais pesado era a debandada geral, acabava-se o espetáculo imediatamente.
Em pés de lã a malta avançava numa cadência de metrómano, em câmara lenta, com uma sincronização de movimentos precisa e decidida, como se cumprisse os tempos duma coreografia: o lago dos cisnes em pontas. Quando a distância já reduzida permitia confiança, a certeza de não se falhar o objetivo, à uma, em segundo ato, todos empunhavam a arma de que dispunham, fosse uma simples pedra, uma fisga ou mesmo uma pressão de ar. Em ordem, no terceiro ato,  era o apontar e o clímax, a adrenalina no máximo, e por fim a resolução no disparo simultâneo. Uma correria infernal, dos caçadores e das presas, exceto dos caçados que jaziam por terra. É claro que as vítimas eram depois arremessadas para longe daquele lugar. Não era sítio próprio para aquela casta.

O muro do cemitério era o local supremo para a caça de sardões.

hajota








terça-feira, 13 de setembro de 2016

A_linhas





Dorme descuidado o peito e repousam os pensamentos graves.

Holderlin, Poemas, 1.º verso de Ócio - Ed. Relógio d'Água




David Hockney, Hotel Acatlan, Second Day






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Há vozes desconexas sem face,
sons avulso sem relação,
filamentos como penugem a esvoaçar
em contraluz crepuscular

sem a brusquidão dum arrepio,
preguiçosamente, em harmonia,
um bailado de linhas,
um esboço de rosto
traçado a carvão de agosto

Antes das sombras linhas antes das linhas pontos,
depois, insinuam-se na ideia
da noite, consistentemente,
e adquirem densidade suficiente,
passam a reais, para lá do aparente
a linhas



hajota

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

A escória dos mas

Os de Alexandria,
Com as suas mãos finas
E suas batinas
De carvão de coque,
Dizem-me que toque.

Ruy Cinatti, O Livro do Nómada Meu Amigo, 
1.ª estrofe de Sinal dos Tempos



http://larajacinto.com/




A escória dos mas atravanca-lhe os espaços
onde ousa em liberdade imolar-se
O poeta voa na dúvida mas
quem se sujeita a asas tem
o destino de sonhar rente às lágrimas se
as nuvens precipitam punhais

O poeta voa na dúvida até
quando  mergulha em transe  no som
da imaterialidade dos dedos queimados
no vazio da luz branca dos dias
Sobrevém-lhe o cansaço lasso lavado a sal
de condenado sem dúvida ao eclipse do sol


hajota