domingo, 9 de dezembro de 2018

O Crepúsculo Azul



...
- A esperança resiste sempre
e onde está a minha doutor, caiu-me um dia destes, não torno  a encontrá-la, se calhar rebolou para debaixo da cama ou sumiu-se para sempre numa frincha qualquer, os soalhos não são feitos de tábuas, são feitos de intervalos nos quais também a vida se some e é inútil procurá-la de gatas, descobre-se um elástico, uma tampa de caneta, moedas já sem valor às vezes mas a esperança perdeu-se"...

António Lobo Antunes, Para Aquela Que Está Sentada No Escuro à Minha Espera


-o-o-o-o-o-o-



Imagem minha


-o-o-o-o-o-o-

Ainda por cá ando e,
a propósito de cores,
perco o juízo pelas bermas
do caminho que por mim passa,
numa ilusão caleidoscópica:
enquanto a folha cai
o tempo que se tem vai

Sei que é preciso saber 
mas não há ciência, que investigue, afirme, guie,
peremptorius,
a acção paradoxal da inacção,
no entanto sei que é preciso esperar
Esperar…

pela hora azul quando se cai
do deslumbramento da perfeição
acabada no instante que sublima 
a beleza de tudo o que nasce
se define e definha

Ainda cá ando e espero
e delecio-me na dualidade 
da cor que verbalizo a caminho
nas alamedas da insignificância 
definitiva de - que remédio

Perco o juízo pela hora crepuscular
Azul


hajota

sábado, 27 de outubro de 2018

Eu sou Rio que corre ao contrário



Pelos dias quadrados corre a brisa
Que nos seus corredores nunca se engana

Sophia de Mello Breyner Andresen, 
Livro Sexto, Pátios



Amadeo Souza-Cardoso



oooOOOooo





Eu sou Rio que corre ao contrário
sou nascente sou poente sou morte
corro de onde vim para nascer de mim
tudo começa no início
e corre até ao fim
que é morrer


O homem tem um princípio
e há-de ser o que quiser
querer é poder diz o povo simplesmente
O gomo  brota acrescenta-se
de ver e ouvir risos e prantos com tantos
a abrir espaço e mente

Faz-se físico e espírito alameda aplanada
donde surgem ruas rasgadas
e travessas imbuídas da mesma lei
perpétua em génio e semelhança
“Aorta” rio vermelho ao contrário
escorrendo da foz prá nascente

afluentes crescem prá frente
como a gente que veio de trás
no mesmo vermelho na mesma paixão
no sangue que multiplica a imortalidade
das estrelas que hão-de vir
para serem gomos homens-rio



                                          hajota

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Patrimónios de pó



Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa (1.ª estrofe)






O poema agrega o cinzento cimento,
para coerência da edificação,
e desagrega o fissurado da unidade,
lobo a lobo,
em alçados de ortogonal construção,
cartografados em pontos cardeais:
frontal parietal temporal occipital.

Nas quatro fundacionais paredes
o passado ruína rumina presente,
inspira expira gemidos ruídos
orgânicos de motibilidade biológica
previamente inscrita, 
escrita na torrente do límbico 
exercício concreto do abstracto.

Ouro imaterial nasce na memória
preservada pela dura-mater,
- patine amadurada do tempo -
no miolo da urbe, no miolo da gente.
E no meio a mesa, cadeiras em volta, 
onde o branco vazio da folha espera
o jorrar inapagável da tinta luminescente. 

Molécula a molécula a construção
do fraseado destinado do destino respira. 
O bafo húmido corre poro a poro o fílme:
a matéria que renasce enquanto morre  
na pedra no tijolo no grão de areia,
é património vivo da gente, guardado em pó. 
No miolo está pura a eterna poesia.


hajota

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Da ausência do Pinhal


(...) A cabeça ficara marcada, invisível, mas quando me deitava de costas, na escuridão, sentia uma queimadura na têmpora, a crosta fervendo por baixo, da nuca à testa. Interpretava-a como uma cicatriz que me acompanharia até à morte, o emblema de uma guerra assombrosa de que já esquecera os pormenores e o sentido. (...)


Herberto Hélder, Servidões






http://rr.sapo.pt/noticia/95895/


As dunas a esmorecer de pele nua 
perderam o viço a urze e o feto,
os grãos de areia crescem em deserto.

Rugoso o rosto sentinela não sua
resina e o filtro verde - o nosso amparo -
jazem mirrados em cinza, reparo.

A nortada desmedida tomará posse,
como bárbaro huno o espaço,
sem piedade.

No Inverno virá a capital pena,
incomutável na memória, a cena
dos homens-espectros sem tempo, a morrer,
com saudades dum Pinhal por nascer.
Sem piedade.


hajota

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Saudades de ninho

   



 Alexandre O'Neill
19dez1924 - 21ago1986

                *

Oh, O'Neill!
inventor da palavra
certa a cada lavra.
Pintou o caneco de caras
e de perfil.

hajota





The Palace at 4 A.M., Alberto Giacometti /
 http://simulacrum-pedrocamposrosado.blogspot.com/ de Campos Rosado






Por entre o assobio e a sílaba
soprada, nos ramos do valado 
pousada a revoada agita-se 
num espanejamento de penas
sobrantes dos gelos que ficaram
das longas noites de cavaqueira.

Levanta voo e segue pistas rumo ao  sol:
recoze a crosta das feridas dos barros
esparramada entre a areia e o mar,
debica maresias de iodo e sal.
Mas já se pressente no ar 
o enfado saturado do calor, e o desejo 
do planear ancestral da renovação. 
O ano começa no equinócio, 
não no solstício!

Tomara que cheguem os dias
húmidos de botas cravadas na lama
e se inundem os caminhos primevos
onde suspiram perfumes
de musgo e terra molhada,
enfim libertos de aerossóis.

hajota

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Escada de serviço

Ruy Belo, "tu estás aqui"!
27fev1933  -  08ago1978 (...)




Belo,
apesar do peso da cinza
se fez árvore
Apesar da árvore
que se fez cinza
Ruy e Belo

                           hajota







Não li nem vi
isto isso ou aquilo
tão pouco sei se os olhos
já cansados têm cristalino decente
se viram este esboroar vice-versa
O que eu sei é que a gente entra
em casa
e a porta abre-se por si
atravessa-se ela em nós
divisão a divisão ou
então é a gente que se atravessa
sempre à pressa
Quando menos se espera
não se escolhe a altura
não se pensa na altura
está-se na porta dos fundos
dá-se um passo no escuro e
não está lá
a escada de serviço


hajota


quinta-feira, 24 de maio de 2018

Poesia petiz


O pino na vida

Recebi na virtualidade tranquila do Facebook uma frase lapidar: 
“aceite o que não pode mudar, mude o que não pode aceitar”!
Tão elementar de ler e de entender, contudo, o trabalho que isso dá... A dificuldade em atingir o ponto de equilíbrio da verticalidade é imenso, por isso, nem todos conseguem o pino, ficando-se na inércia da horizontalidade missionária.
Quando o verbo se extingue está morta a vida. É o verbo que tudo conjuga.
Quem é capaz de fazer o pino? O Pomar fê-lo, imensamente, e ficou sempre de pé.


~~~~~~~~~~~~


nadir_afonso






na aventura das palavras
quem diz barcos e (a)mares
condiz árvores com mastros
e madeira são tábuas azadas
em cavername e quilha conformadas
seja carne ou pele o que sou
com frio e calor tudo eu dou
numa folha de papel


vem a neta e diz
“avô faz um barco!” …
levanta-se uma brisa enfuna a vela
num instante e a folha gravada
a azul bic conforma-se 
na poesia petiz e
pomo-nos a navegar par a par
no nosso feliz amar

mar e amares e tanta cor
fruta e flor num Pomar primoroso
a navegar justamente 
agora que o Júlio vai



hajota