quinta-feira, 24 de maio de 2018

Poesia petiz


O pino na vida

Recebi na virtualidade tranquila do Facebook uma frase lapidar: 
“aceite o que não pode mudar, mude o que não pode aceitar”!
Tão elementar de ler e de entender, contudo, o trabalho que isso dá... A dificuldade em atingir o ponto de equilíbrio da verticalidade é imenso, por isso, nem todos conseguem o pino, ficando-se na inércia da horizontalidade missionária.
Quando o verbo se extingue está morta a vida. É o verbo que tudo conjuga.
Quem é capaz de fazer o pino? O Pomar fê-lo, imensamente, e ficou sempre de pé.


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nadir_afonso






na aventura das palavras
quem diz barcos e (a)mares
condiz árvores com mastros
e madeira são tábuas azadas
em cavername e quilha conformadas
seja carne ou pele o que sou
com frio e calor tudo eu dou
numa folha de papel


vem a neta e diz
“avô faz um barco!” …
levanta-se uma brisa enfuna a vela
num instante e a folha gravada
a azul bic conforma-se 
na poesia petiz e
pomo-nos a navegar par a par
no nosso feliz amar

mar e amares e tanta cor
fruta e flor num Pomar primoroso
a navegar justamente 
agora que o Júlio vai



hajota





quinta-feira, 26 de abril de 2018

A floração que me abriu

"E esta noite, conforme tantas vezes desde há quarenta  e três anos, tornei a sonhar com África, não ataques que começavam sempre pela metralhadora a que os soldados chamavam costureirinha a cantar junto à pista, ou seja nos cem metros de terra batida onde o aviãozinho pulava, nem emboscadas nem minas, apenas eu sozinho junto ao arame farpado a pensar em Lisboa, a ver o rio, os barcos, as casas" ...

António Lobo Antunes, Até Que As Pedras Se Tornem Mais Leves Que A Água




nadir afonso




no instinto lera em fogos ateados
por aqui e por ali a paixão
mas não amadurara ainda o tempo
a floração sabida na intuição

vi-me virgem ainda de flor   
na mão liberta da adolescência
que viera de muito longe até mim
que era a subversão e o poder do amor

vieram dias de loucura e medo
de criança verde e botas calçadas
onde me vi paradoxo de homem
articulado de incredulidade

corriam dias de loucura e medo e
no espanto arregalado de meus olhos
chegaram esp’rança e fraternidade
palavras novas prenhes que ouvira

liberdade num povo da canção
que inda ouço mas não vejo a cada Abril


hajota

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Espectro de Modigliani



"Chorava, limpei-lhe as lágrimas. Perguntei-lhe 
absurdamente  o  que  tinha, como  que  para 
idiotamente consolá-la."
     
 Jorge de Sena, Sinais de Fogo, Ed. Asa


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James Whistler_the white note



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                                               Para Graça Pires,
poeta, autora de "Fui quase todas as mulhares de Modigliani"


Por onde anda em descaminho Dedie?
Há um ar de nostalgia a definhar a flor
que lhe rouba o rubor de mulher
desmaiou-lhe a cor - as faces da espera
Procurei-a na celulose da casa  
“Fui quase todas ( …)”

A perturbação plasmada na tela
cresce no olhar escrito nu
no número trinta e três
A melancolia que se atravessa
liquefez-se num “mar sem limite”…

Tão larga tão funda tão vaga
a comoção da pedra que me afunda
da pedra me amarra




           hajota

quarta-feira, 21 de março de 2018

Antes do prenúncio das coisas




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até cada objecto se encher de luz e ser apanhado
por todos os lados hábeis, e ser ímpar
...

Herberto Hélder, in Servidões





Francis Bacon




Não era ainda o tempo, ainda não era tempo,
o tempo ainda não era
dos dias cumulados atados ao fio
da vida de seda e mel, de cilício e sal.

Não era ainda o tempo
dos lábios quentes veludo, assobio
de vermelhas harmonias da paixão,
nem dos lábios sangrando gretados em pio,
letra a letra, pingando na aridez clara
que cega a palavra.

Desenfiadas do fio as letras desirmanadas,
as vogais das consoantes desencontradas,
perdem-se na porosidade desértica ingente:
a ideia indigente num tempo que ainda não era
antes do prenúncio das coisas.


hajota


segunda-feira, 12 de março de 2018

Na ausência da luz

egon_schiele (pintor), cego 1913








Um pouco mais de sol - eu era brasa,         
Um pouco mais de azul - eu era além.        
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...   
Se ao menos eu permanecesse àquem...    

Mário Sá-Carneiro, 1.ª estrofe de Quasi    



















(Na ausência da luz) 
Há dedos sem pele a arengar
as marcas primevas, indomáveis,
ainda sem identidade, ininteligíveis 
Ficam as mãos enoveladas num novelo  
de linhas desconexas, inviáveis de dobar,
pelos gestos imperceptíveis da comoção
Invisíveis escorrem bagas cordas no vazio
das vagas coisas por iniciar

Num orvalhar arrítmico de sístoles,
o esforço sobrenatural esgota-se
na sulfúrica composição que sobe
à boca, em silêncio, sem ar de respirar,
e o pressentimento bicho desperta
o medo que se enrola no âmago do ser
No gutural ensaio grunhido vacila
o bafo no arredondar da forma do fonema

Não há tecla que defina o claro e a cor,
os restos de arco-íris e os relâmpagos da criação
O probiótico da palavra arrota  sílabas mudas  
e, assim, só inícios balbucios borbulhantes
na garganta, impossíveis de pronunciar
Perde-se o acto instantâneo!
Sem gestação nem parto, fica abortada
a eternidade efémera do sentir do dizer e do ler

hajota



quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

O Azul no teu olhar

                                                                                                                         

As Ilhas II                          

Navegação abstracta
Fito como um peixe o voo segue a rota
Vista de cima tornou-se a terra um mapa

Porém subitamente
Atravessámos o Oriente a grande porta
De safiras azuis no mar luzente

Sophia de Mello Breyner Andresen, 
Navegações, - ed. Caminho





"Azul Instantâneo", https://www.facebook.com/Isabel Teixeira de Sousa, Artista



na límbica transparência da emoção
intensidade e profundidade
amplas maior que o oceano lácteo 
onde a esfera roda e o barco voga
Tão simples a complexidade
que compõe o azul
o mar página de pele 

Se bem atentares verás
na margem amigdaliana
o brilho da pérola
os recifes e os corais
os seres vivos e os mortais

Abraça-te ao azul do mar
no teu olhar

hajota

domingo, 24 de dezembro de 2017

O natal que vai de mim a ti


A todos os amigos um abraço de Boas Festas


Fonte Wikipédia
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 Foi tudo tão pontual 
Que fiquei maravilhado.
Caiu neve no telhado
E juntou-se o mesmo gado
No curral.

Nem as palhas da pobreza
Faltaram na manjedoura!
Palhas babadas da toira
Que ruminava a grandeza
Do milagre pressentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido.

Mas afinal o cenário
Não bastou.
Fiado no calendário
O homem nem perguntou
Se Deus era necessário...  
E Deus não representou.



Miguel Torga (in Diários) poema de Natal que              
ressuma o tom de autenticidade do Homem  e             
da pessoa que ele foi - a sua imagem.                               

O Pai Natal é contrafeito, digo eu.                                               



Paul Gauguin, 



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Que distância vejo de mim a ti,
que distância mediste tu?
Ideal seria se fosse igual. Mas não é. 
A manteiga do relativismo é o que é.
dois pontos: um sobe o outro desce?  
Justo seria se houvesse ponderação, 
equidade, disponibilidade no esforço… 
subir e descer custa. O que custa!
 A quem custa: a mim ou a ti?

Poderíamos convergir para um ponto 
comum. Logo veríamos como fazer 
o balanço do subir e do descer, 
ou vice-versa: subir pode ser descer.
Teoricamente seria fácil, mas, 
sabendo-nos os dois:tu és tu e eu sou eu... 
É tão complicado o simples!

Por exemplo, as peúgas no tapete, 
minhas, e as tuas (meias) dependuradas 
no aquecedor. Tão simplesmente coisas de pés. 
Ou a tampa da sanita levantada por mim
e baixada por ti. A mesma circunstância
comum:  urinar: uma divergência sem fim.
  Um pózinho de orgulho, casmurrice
a natural oposição entre mim e ti,
e gestos que afastam a distância da vontade.

Caminhamos mesmo assim? Por necessidade,
atínhamo-nos à certeza óbvia das marés,
à força, à atracção orbital dos corpos
em equilíbrio relativo, e às ondas...
 Contávamos as ondas uma a uma, 
passo a passo, tu e eu a convergir e,
à sétima, a absolvição da espuma branca,
o regresso à (in)genuidade original,
sem recriminações, sem mácula de natureza,
isto é, a aceitar o caos das coisas todas.

Cada coisa feita perfeita, completa, combinatória
e harmónica como força pulsante, convergente
e divergente, ora coração ora universo, à vez.
E se da terra ao céu não houver distância? 
Há sim uma irrealidade ancestral e presente, 
a da voragem da luz que nos cega.

E se te dissesse que à noite se vê melhor
 o caminho marcado da distância
numa conjugação diferente, não condicional?



hajota