domingo, 21 de janeiro de 2024

Em todos os dias sou hoje

 


Hoje eu levo os dois

olhos abertos

E mergulho devagar

no azul-estrela

de um dia novo


Matilde Campilho, últimos versos de Algarvia



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foto minha



Em todos os dias sou hoje

eu melro eu rouxinol

Ser Terça ser Quarta

sendo Feira tanto dá

Hoje canto o Sol...

em amanhã hoje tinto

beijos veludo d'amora

Todos os dias sou hoje


hajota


terça-feira, 26 de dezembro de 2023

 

PROVA DE VIDA
a todos os que por aqui passarem,
após um longo interregno:
Boas festas e óptimo 2024


foto minha



A astrologia alinhou corpos no céu

e a convergência de latitude e longitude

opera o milagre existencial

de cada lugar do momento solsticial

Salvo as perenes excepções biliares

das fardas da violência verde

este ano o Natal está de feição


No céu a diurna estrela rebrilha

(o Sol quando nasce é para todos


excepto para os que moram em caves

e entre os escombros das urbes)

e a lua na cauda da gestação adivinha

a rotura dos diques - mera coincidência

a maior afluência aos blocos de partos:


é então natural

haver menino ou menina

celebrar o Natal


(O bacalhau subiu

O cabrito subiu

A trochuda subiu

O bolo-rei subiu

O azeite subiu

O vinho subiu)


Sem festa é que não

nem os votos natalícios

decidiam o destino


dez26,2023

hajota

domingo, 25 de dezembro de 2022

Agora mesmo o destino mudou*

Depois de tanto tempo, um golpe de ar veio insuflar-me a vela de navegar 

para isto, para aquilo... et cetera. E para, num salto, agradecer a graça da persistência

dos Amigos e desejar-vos a força da Alegria neste Natal. A todos abraço.

Abracem-se "Agora mesmo o destino mudou"*.

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Chegado a dezembro

passadas

todas as estações sem

atinar no rumo,

nos ventos e marés, sem

conciliar as estrelas que sustêm

a acção


(acidente a ocidente nos corações)


Pus-me de través 

no manto da noite,

oportunisticamente à espreita

dos derradeiros dias, atentando

o cínico assalto do ano, sei

Sei da Luz do solstício que regressa

em Dezembro - Natal


23dez2022

hajota

* do Natural, W G Sebald

sábado, 1 de janeiro de 2022

Pés e Anos

Decorrido um período em que pouco tenho editado por aqui, aproveito esta ocasião para fazer prova de vida. Agradeço, do fundo do coração, a todos os que me têm feito chegar, de algum modo, cuidado, simpatia e amizade. 

A todos os caros Amigos e Leitores que por aqui têm passado desejo o melhor: o que a cada um convém. Que o ano 2022 venha a ser uma oportunidade de realização das aspirações de cada um, com saúde e alegria.


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Foto minha


Pés e anos não há dois iguais

nem num par de pés


Mesmo em todos os anos dobrados

Não há sorte que consiga par em fullen


Mas pés são pés e anos são anos

sempre de variado tempo


Não se medem em dias e meses

antes pelo que neles se dá e faz


É assim que serás o que és

sem vírgula a meio ou ponto


no fim nada te fará diferente

Nunca te arrependas do que és


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O 2022 será o melhor que nos vem à mão:

ter 3 (três) patinhos num ano!

Melhor só no céu. Em 2222...

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hajota



segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Jerónimos, 2021-09-12



Aconteceu
Vimos a emoção partir, já não chorava
Guardamo-la nós agora até à eternidade
E que ninguém negue esse sortilégio!

Ninguém o pode recusar nem negar, 
a não ser a boca dos desprovidos de coração, 
bombas mecânicas, apenas, de lançar 
na corrente dos dias a sombra, 
a ignomínia e a raiva da maldição 
da sua inexistência.
(Mas esses não contam nos grandes momentos)

Aconteceu
Ninguém pode negar
a formidável cintilação dos ésses coincidentes
na cúpula magnífica dos Jerónimos,
a conjugação dos dois astros distintos:: 
dois Jorge, Sena e Sampaio  

hajota




 


Uma pequenina luz - poema de Jorge de Sena

Uma pequenina luz bruxuleante
Não na distância brilhando no extremo da estrada
Aqui no meio de nós e a multidão em volta
Une toute petite lumière
Just a little light
Una picolla, em todas as línguas do mundo
Uma pequena luz bruxuleante
Brilhando incerta mas brilhando aqui no meio de nós
Entre o bafo quente da multidão
A ventania dos cerros e a brisa dos mares
E o sopro azedo dos que a não vêem
Só a adivinham e raivosamente assopram
Uma pequena luz, que vacila exacta
Que bruxuleia firme, que não ilumina, apenas brilha
Chamaram-lhe voz ouviram-na, e é muda
Muda como a exactidão, como a firmeza, como a justiça
Brilhando indeflectível
Silenciosa não crepita
Não consome não custa dinheiro
Não é ela que custa dinheiro
Não aquece também os que de frio se juntam
Não ilumina também os rostos que se curvam
Apenas brilha, bruxuleia ondeia
Indefectível, próxima dourada
Tudo é incerto, ou falso, ou violento: Brilha
Tudo é terror, vaidade, orgulho, teimosia: Brilha
Tudo é pensamento, realidade, sensação, saber: Brilha
Desde sempre, ou desde nunca, para sempre ou não: Brilha
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
Como a exactidão como a firmeza, como a justiça
Apenas como elas
Mas brilha
Não na distância. Aqui
No meio de nós
Brilha

(dito, na circunstância das cerimónias fúnebres de Jorge Sampaio, 
por Maria do Céu Guerra)

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quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Doce de Agosto

 

A gente pensa devagar, aliás, 

nem há vagar com tanta solicitação, 

apelo, corpo em pêlo, praia, verão, turismo

Turismo: globalização, habituação


Calote: incomoda-pé,

dívida pública, polar...

Que interessa isso?

Desde que haja gelo no copo...

"vamos beber o drink de fim de tarde"!


Depois, depois, muito depois, 

o depois-nunca... o clima, 

o vórtice do funil a afunilar a vida

O que nos vai valer é o que irá haver:

colónias de férias em marte 

pagas a bitcoins

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uma boca só

dá dó

revela fome

fome essencial

doutra boca

como pão para a boca

vital!

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hajota (palavras e foto) 


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