sábado, 26 de janeiro de 2019

Espaços e ficções



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Não me exijam
que diga
o que não digo

M.ª Teresa Horta, Estranhezas, 
 início de Questões de Princípio 


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busca pólos 
busco 
ainda o tom  
contacto pólo
tacteio
apresso a luz
curto circuito

hajota

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Akvarell 1982, Navle Skodar i halvlit
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Aqui neste ancoradouro sentado
lugar de ver sem muro
tudo o que está e o que não está:
passado presente e futuro

Cadeiras mesas copos chávenas
e o éter de etílicos cheiros saturado
e perfume suado do convívio íntimo
animal o velho e o lavado

e nuvens de fumo espiralado
das chaminés da cavernosa alveolar
adensando tenebroso o cinza do céu
à espera da redenção duma corrente de ar

E vejo fantasmas pessoas
sem que o saibam já ausentes
e a ficção dos maduros pausada
de sorrisos contidos à mesa rentes

e os conformados de etiqueta comum
e os cínicos na contrafacção do riso
de brilho sacana pregando ladaínhas
de descaramento escarninho

e jogadores de moedinha jocosos
ao pôr do sol de ambições incríveis
a afogarem-se verdes os invejosos
em queda  nos abismos do desespero

Vejo enfim  as puras da alegria
descuidada ainda ingénuas figuras
do devir que sobem à tona sem suspeita
de irem repetir guiões iguais amanhã


hajota

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Ano 2019


A primeira folha a ser escrita está a chegar ao  fim. Faltam 364 em branco a crescer. Que saibamos, dia a dia, fazê-lo. Com saúde alegria. Tudo o resto é acessório, mas cada um inclua aquilo que lhe der mais jeito.
Beijos e abraços a todos os amigos que por aqui passam.


paul klee_diário de um artista



dois mil e dezanove.
o ano é bom, ímpar,
de nome e ciclos solares.
depende é do diário
que se lhe põe em cima
que faz o calendário.
que não sejam azares.

é escrever paz amor saúde e 
€€€ a receber e dar,
em função do corpo e do espírito, 
à medida do que cada um precisar.



hajota

domingo, 23 de dezembro de 2018

Adorando andorinhas


A todos os amigos e seguidores deste blogue desejo as maiores felicidades nas suas vidas pessoais e familiares, especialmente nesta quadra festiva de Natal e Ano Novo.





    Natal quêbê       
Natal quanto baste a cada um!
É melhor todos terem algum
Do que não haver nenhum

Que o Homem veja o que faz
Para que se conserve a Paz

hajota





Adorando andorinhas 
tão antigas as memórias
nozes bolos avó com tempo
e carrapito preto preso ao gancho
de tartaruga (plástico não havia)
o glaucoma embaraçado no fumegar do chá

As vidraças embaciadas
e a gente entretida a doces marmeladas
abria folhas a dedo
na tarde deformada lá fora

quando no beirado os ninhos já
gelados de saudade dos bicos o barro
o bairro inteiro desabituado devoluto
carente de acrobacias os voos picados
do céu à calçada rasantes 
que se alevantava
até ao poiso no cobre que morria

na janela da sala deslumbrada
os olhos ainda as seguem na imaginação


hajota

domingo, 9 de dezembro de 2018

O Crepúsculo Azul



...
- A esperança resiste sempre
e onde está a minha doutor, caiu-me um dia destes, não torno  a encontrá-la, se calhar rebolou para debaixo da cama ou sumiu-se para sempre numa frincha qualquer, os soalhos não são feitos de tábuas, são feitos de intervalos nos quais também a vida se some e é inútil procurá-la de gatas, descobre-se um elástico, uma tampa de caneta, moedas já sem valor às vezes mas a esperança perdeu-se"...

António Lobo Antunes, Para Aquela Que Está Sentada No Escuro à Minha Espera


-o-o-o-o-o-o-



Imagem minha


-o-o-o-o-o-o-

Ainda por cá ando e,
a propósito de cores,
perco o juízo pelas bermas
do caminho que por mim passa,
numa ilusão caleidoscópica:
enquanto a folha cai
o tempo que se tem vai

Sei que é preciso saber 
mas não há ciência, que investigue, afirme, guie,
peremptorius,
a acção paradoxal da inacção,
no entanto sei que é preciso esperar
Esperar…

pela hora azul quando se cai
do deslumbramento da perfeição
acabada no instante que sublima 
a beleza de tudo o que nasce
se define e definha

Ainda cá ando e espero
e delecio-me na dualidade 
da cor que verbalizo a caminho
nas alamedas da insignificância 
definitiva de - que remédio

Perco o juízo pela hora crepuscular
Azul


hajota

sábado, 27 de outubro de 2018

Eu sou Rio que corre ao contrário



Pelos dias quadrados corre a brisa
Que nos seus corredores nunca se engana

Sophia de Mello Breyner Andresen, 
Livro Sexto, Pátios



Amadeo Souza-Cardoso



oooOOOooo





Eu sou Rio que corre ao contrário
sou nascente sou poente sou morte
corro de onde vim para nascer de mim
tudo começa no início
e corre até ao fim
que é morrer


O homem tem um princípio
e há-de ser o que quiser
querer é poder diz o povo simplesmente
O gomo  brota acrescenta-se
de ver e ouvir risos e prantos com tantos
a abrir espaço e mente

Faz-se físico e espírito alameda aplanada
donde surgem ruas rasgadas
e travessas imbuídas da mesma lei
perpétua em génio e semelhança
“Aorta” rio vermelho ao contrário
escorrendo da foz prá nascente

afluentes crescem prá frente
como a gente que veio de trás
no mesmo vermelho na mesma paixão
no sangue que multiplica a imortalidade
das estrelas que hão-de vir
para serem gomos homens-rio



                                          hajota

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Patrimónios de pó



Primeiro abre-se a porta
por dentro sobre a tela imatura onde previamente
se escreveram palavras antigas: o cão, o jardim impresente,
a mãe para sempre morta.

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa (1.ª estrofe)






O poema agrega o cinzento cimento,
para coerência da edificação,
e desagrega o fissurado da unidade,
lobo a lobo,
em alçados de ortogonal construção,
cartografados em pontos cardeais:
frontal parietal temporal occipital.

Nas quatro fundacionais paredes
o passado ruína rumina presente,
inspira expira gemidos ruídos
orgânicos de motibilidade biológica
previamente inscrita, 
escrita na torrente do límbico 
exercício concreto do abstracto.

Ouro imaterial nasce na memória
preservada pela dura-mater,
- patine amadurada do tempo -
no miolo da urbe, no miolo da gente.
E no meio a mesa, cadeiras em volta, 
onde o branco vazio da folha espera
o jorrar inapagável da tinta luminescente. 

Molécula a molécula a construção
do fraseado destinado do destino respira. 
O bafo húmido corre poro a poro o fílme:
a matéria que renasce enquanto morre  
na pedra no tijolo no grão de areia,
é património vivo da gente, guardado em pó. 
No miolo está pura a eterna poesia.


hajota

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Da ausência do Pinhal


(...) A cabeça ficara marcada, invisível, mas quando me deitava de costas, na escuridão, sentia uma queimadura na têmpora, a crosta fervendo por baixo, da nuca à testa. Interpretava-a como uma cicatriz que me acompanharia até à morte, o emblema de uma guerra assombrosa de que já esquecera os pormenores e o sentido. (...)


Herberto Hélder, Servidões






http://rr.sapo.pt/noticia/95895/


As dunas a esmorecer de pele nua 
perderam o viço a urze e o feto,
os grãos de areia crescem em deserto.

Rugoso o rosto sentinela não sua
resina e o filtro verde - o nosso amparo -
jaz mirrado em cinza, reparo.

A nortada desmedida tomará posse,
como bárbaro huno o espaço,
sem piedade.

No Inverno virá a capital pena,
incomutável na memória, a cena
dos homens-espectros sem tempo, a morrer,
com saudades dum Pinhal por nascer.
Sem piedade.


hajota