domingo, 25 de abril de 2021

 



 Yona Friedman (foto minha)



a Revolução foi ontem

hoje é que é o dia de pôr o cravo

na ponta do mastro para que navegue

na ponta da vela para que vele (por nós)

na ponta da espingarda para que o medo não volte

na ponta da língua para que a esperança e a utopia não esmoreçam

na ponta do propósito do que falta cumprir

e ainda há tempo no nosso (a não esquecer) 


hajota

domingo, 21 de março de 2021

 

Havemos de ir ao futuro
e, quando lá chegarmos
hão-de estar todos
juntos numa festa..
[...]

Filipa Leal



Van Gogh, amendoeira em flor, fonte -web


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Tudo como dantes?
Estava eu aqui a picar
grãos de milho tictic tictictic tic…
e a pensar de papo vazio
onde andará o tempo como dantes 
Havia melão e melancia e arroz doce, e…
E sorrisos e alvoroço e tropel
no soalho e corridas à volta da mesa e
no quintal da amendoeira a depenar-se
do branco em pétalas… da gente miúda
E a graúda esquecida
em copas e paus e ouros e espadas
do tempo 
biscando tanta copulativa 
(é certo)
mas era o modo de se ligarem 
pessoas e coisas acrescentando
tempo ao tempo
Em ambiente familiar dispensavam-se 
vírgulas formais

E agora tictic tictictic tic


hajota 


sábado, 20 de fevereiro de 2021

Aí, há homens que vivem, pálidos, sem cor,

e morrem sem saber por que sofreram

E nenhum deles vê o pobre trejeito

que ao fim de noites sem nome veio substituir

o sorriso feliz de um povo meigo


Rainer Maria Rilke



oooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo


fountain, marcel duchamp, web


oooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo


No bidé metrómano de torneira, o pingo

pinga pinga pinga o ritmo da larga partitura

A princípio audível na cabeça o som ainda,

pingue noturno minimalista lento chato,

fez-se surdo, nódoa oxidada na osteoporótica por-

celana, brancura na ideia que alastra ao corpo

à casa a tudo: a luz ausentou-se da gente enfim.


A lei da seca estabelecera o enterramento

das bibliotecas, o encerramento das livrarias,

portas e postigos lacrados, e a subversão

desceu à rua porta a porta em corpo invisível.

 

A necessidade de livros estalou por toda a parte

num tempo de reclusão tão farto de liberdade

mas da abundância de tempo, livres para fazer  

aquilo para que não havia tempo, a erosão dum vento

demente fez à sorrelfa um vazio na mente.


Sem margens marcos paredes parapeitos

onde hão-de descansar os cotovelos que suportam

a cúpula se a fonte corre ao contrário?


hajota


quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Escritura do Início

Depois de um longo período de nojo, uma nova esperança se acendeu.

Uma pomba trouxe no bico uma réstia de Sol. Tanto. Quanto basta para que as promessas e juras me sejam perdoadas e emirja um novo Dia.

Muito grato estou pelas mensagens que recebi no silêncio do meu coração inquieto.

hajota

 

-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-

 

Quando eu me calar 

sabei que estarei perante uma coisa imensa.

E que esta é a minha voz,

o que no fundo de isto se escuta

 

de Todas as Palavras, do eterno Manuel António Pina


Imagem minha


-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-


Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança

na Escritura do Início e pô-lo no mundo só

Só que o homem não sabia o que nem o como fazer

Então Deus ainda de mão quente oleiro de o conceber

retirou-lhe a costela que comprovadamente

se veio a saber através de milénios de História

não lhe fazer falta nenhuma pois mesmo assim

ficou com as bastantes na quilha de navegar

E modelou-lhe a companheira com vagar

e refinamento de segunda vez – Mulher

 

Veio depois a hora da verdade sem mais nada havia

que inventar desenhar e o Homem não sabia

Nada via senão o tronco desconhecido perante si

Ela a sabedoria pegou-lhe na mão esquerda e

levou-lha à nuca nua de si - a ela que sabia

Ensinou-lhe desce agora a mão lentamente e lê

até ao limite o morse da verticalidade do .- -- --- .-.

Maravilhado voltou ao início do verso para a segunda vez

a experimentar-lhe o relevo de todos os sons e arrepios

polegar e indicador decifrando todas as emoções e sentidos

 

E não houve silvo de cobra nem inferno de demónio

Esses são obra do homem que teve medo e se irou



hajota


quarta-feira, 27 de maio de 2020

Por ser muito não é pouco


“Quando partias, qual secreta tentação juvenil, escolhias, com esmero, uma pedra achatada e lisa. Depois, num movimento de anca, atiravas com firmeza, na horizontal, deleitando-te enquanto a vias saltitar à superfície da água.”

 Do Blogue Interioridades
Último § de Esboço de Tela do Tempo Parado
(façam-me o favor de ir ler)


foto minha






Intocável impecável o chão nosso
prenhe em avançada gestação,
muito prenhe, portanto isso
no verde que vela a violência da floração,
e lavado o ar leve abre favos de mel
nos pulmões todos até aos alvéolos,
e o babar do mar lânguido no areal,
e o azul do céu salpicado de sardas
brancas, sonhos visíveis à transparência,
e eu e tu, toda a gente, correndo e saltando,
bichos com os bichos nossos irmãos
Por ser muito não é pouco este hino
que entra fundo no imo
Basta-nos a Natureza e ser 
a soar harmonia com todas as coisas

hajota

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Entre margens nado


imagem colhida na web





Dum "Mundo do Fim do Mundo"
Luís Sepúlveda 
- RIP








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Foto minha


Na pedreira das encruzilhadas
ainda há almas grandes mas
eu rio rio da força das águas
que me percorrem e afundam

Num limbo suspenso de resgate
entre margens nado e alguém
carrega às costas esforçadas
os blocos de Sísifo
- a fome e a sede do Mundo 
Há contudo um manto de neblina húmida
e fria a embotar-me a clarividência das ideias
Tão difícil é discernir no crivo
a Verdade destes dias de chumbo
de densidade dobrada

Tão pesados são e tão
nítida a volatilidade do tempo

hajota

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Covid-19 (2)



Passa, ave, passa, e ensina-me a passar! 
Alberto Caeiro, in O Guardador de Rebanhos   



foto minha


Sozinho em casa
conto um dois três quatro… treze
Que dia é hoje?

Os passarinhos a cruzarem o ar
na azáfama primaveril afinam
instrumentos e o melro negro faz
voos rasantes intercalados de gargalhadas escarninhas
não percebendo que denuncia os seixinhos

E eu?
não voo, não canto. Já nem sei
sozinho: um, dois, três, quatro…

Tomo o pequeno almoço e ligo-me
à tv: covid19…
Um melro, dois melros, três melros
Dois de toucado loiro estúpido
o outro alarvemente coberto de boçalidade
Presumidos assassinos babam
nem dos seixinhos tratam.

E eu?
sem asas, sem voz, já nem sei
suportar os asnos um dois três…

Antes do pasmo da alienação
desligo o medo Desligo-me
Parado contido mitigado
mas indignado fico a um canto
Não voo não canto já não conto
Já não conto?!

Vem luz à mente
um brilho ilumina a treva
uma febre súbita premente instintiva animal:
a necessidade de salvar a vida

Os dias?
conto não conto ligo desligo
Não há presente como fazer o …
Recordo o passado e treino
a amnésia de futuro

hajota