quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Escritura do Início

Depois de um longo período de nojo, uma nova esperança se acendeu.

Uma pomba trouxe no bico uma réstia de Sol. Tanto. Quanto basta para que as promessas e juras me sejam perdoadas e emirja um novo Dia.

Muito grato estou pelas mensagens que recebi no silêncio do meu coração inquieto.

hajota

 

-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-

 

Quando eu me calar 

sabei que estarei perante uma coisa imensa.

E que esta é a minha voz,

o que no fundo de isto se escuta

 

de Todas as Palavras, do eterno Manuel António Pina


Imagem minha


-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-


Deus fez o homem à Sua imagem e semelhança

na Escritura do Início e pô-lo no mundo só

Só que o homem não sabia o que nem o como fazer

Então Deus ainda de mão quente oleiro de o conceber

retirou-lhe a costela que comprovadamente

se veio a saber através de milénios de História

não lhe fazer falta nenhuma pois mesmo assim

ficou com as bastantes na quilha de navegar

E modelou-lhe a companheira com vagar

e refinamento de segunda vez – Mulher

 

Veio depois a hora da verdade sem mais nada havia

que inventar desenhar e o Homem não sabia

Nada via senão o tronco desconhecido perante si

Ela a sabedoria pegou-lhe na mão esquerda e

levou-lha à nuca nua de si - a ela que sabia

Ensinou-lhe desce agora a mão lentamente e lê

até ao limite o morse da verticalidade do .- -- --- .-.

Maravilhado voltou ao início do verso para a segunda vez

a experimentar-lhe o relevo de todos os sons e arrepios

polegar e indicador decifrando todas as emoções e sentidos

 

E não houve silvo de cobra nem inferno de demónio

Esses são obra do homem que teve medo e se irou



hajota


quarta-feira, 27 de maio de 2020

Por ser muito não é pouco


“Quando partias, qual secreta tentação juvenil, escolhias, com esmero, uma pedra achatada e lisa. Depois, num movimento de anca, atiravas com firmeza, na horizontal, deleitando-te enquanto a vias saltitar à superfície da água.”

 Do Blogue Interioridades
Último § de Esboço de Tela do Tempo Parado
(façam-me o favor de ir ler)


foto minha






Intocável impecável o chão nosso
prenhe em avançada gestação,
muito prenhe, portanto isso
no verde que vela a violência da floração,
e lavado o ar leve abre favos de mel
nos pulmões todos até aos alvéolos,
e o babar do mar lânguido no areal,
e o azul do céu salpicado de sardas
brancas, sonhos visíveis à transparência,
e eu e tu, toda a gente, correndo e saltando,
bichos com os bichos nossos irmãos
Por ser muito não é pouco este hino
que entra fundo no imo
Basta-nos a Natureza e ser 
a soar harmonia com todas as coisas

hajota

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Entre margens nado


imagem colhida na web





Dum "Mundo do Fim do Mundo"
Luís Sepúlveda 
- RIP








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Foto minha


Na pedreira das encruzilhadas
ainda há almas grandes mas
eu rio rio da força das águas
que me percorrem e afundam

Num limbo suspenso de resgate
entre margens nado e alguém
carrega às costas esforçadas
os blocos de Sísifo
- a fome e a sede do Mundo 
Há contudo um manto de neblina húmida
e fria a embotar-me a clarividência das ideias
Tão difícil é discernir no crivo
a Verdade destes dias de chumbo
de densidade dobrada

Tão pesados são e tão
nítida a volatilidade do tempo

hajota

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Covid-19 (2)



Passa, ave, passa, e ensina-me a passar! 
Alberto Caeiro, in O Guardador de Rebanhos   



foto minha


Sozinho em casa
conto um dois três quatro… treze
Que dia é hoje?

Os passarinhos a cruzarem o ar
na azáfama primaveril afinam
instrumentos e o melro negro faz
voos rasantes intercalados de gargalhadas escarninhas
não percebendo que denuncia os seixinhos

E eu?
não voo, não canto. Já nem sei
sozinho: um, dois, três, quatro…

Tomo o pequeno almoço e ligo-me
à tv: covid19…
Um melro, dois melros, três melros
Dois de toucado loiro estúpido
o outro alarvemente coberto de boçalidade
Presumidos assassinos babam
nem dos seixinhos tratam.

E eu?
sem asas, sem voz, já nem sei
suportar os asnos um dois três…

Antes do pasmo da alienação
desligo o medo Desligo-me
Parado contido mitigado
mas indignado fico a um canto
Não voo não canto já não conto
Já não conto?!

Vem luz à mente
um brilho ilumina a treva
uma febre súbita premente instintiva animal:
a necessidade de salvar a vida

Os dias?
conto não conto ligo desligo
Não há presente como fazer o …
Recordo o passado e treino
a amnésia de futuro

hajota

sábado, 1 de fevereiro de 2020

Corpos da guerra e da paz


Que ninguém lhes diga - Olhai como vivem os homens da terra.
Às aves nada temos para lhes ensinar.

Lídia Jorge, O Livro das Tréguas, excerto de Aos Despidos


júlio pomar
~~~

Helena dividida roubada amuralhada
moveu vontades, e o mar de Troia
transbordou barcos nas areias quentes
Os guerreiros romperam rocha, 
e os guardas tombaram 
pela necessidade de morrer

 Mercenários violaram praças
a romper hímens 
na penumbra do temor, 
acicatados pelo suado desejo
dos corpos da guerra e da paz 
Até à exaustão

Todas as epifanias foram resolvidas 
nas vísceras pelos sacerdotes 
Em premonições proclamaram o estado 
da morte a acontecer

O mar recebe e dá aos corpos 
a dimensão que tiveram em vida, 
sem cobrança de dízimo,
e as escarpas aguardam os suicidas
que escolhem a profundidade 
da liberdade

Calcorrearam paralelepípedos sem fim
para encontrar um poiso, 
um vão de escada,
uma enxerga, um bosque 
virgem, um dorso de serra 
onde o perfume do ventre cobiçado, 
liso dourado esvoaça
entre rosmaninhos e murtas 
ao vento

Estrangeiros, na estranheza negra 
dos corvos, os deuses 
não lhes deram linho
nem sequer singelo limbo  


                             hajota

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Exposição


foto minha



Respira-se
Confia-se
Entrega-se
Diafragma-se
Clique ponto

Fura-se
Aparafusa-se
Dependura-se

Toda a vida
Numa imagem

                                   
              hajota



quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

O Natal é hoje




O Natal é hoje, dia 25 de dezembro, mas andam a querer que nos deitemos na manjedoura desde outubro. Um parto assaz prolongado e custoso.
O homem cresceu no Mundo, em todos os sentidos, contudo há numerosa gente com uma dificuldade incrível, será por atavismo, sei lá, em dizer ao seu semelhante Gosto de ti e, mais difícil ainda como escalar o Everest, dizer Eu amo-te! Sinceramente.
A trabalheira que foi Inventar o Natal para ver se os homem descia do seu orgulho, se livrava de preconceitos e, a maioria talvez, em 2º19, fica-se na superficialidade, pelas fórmulas de comunicação, triviais tão gastas que a gente nem sabe já o que significam, pela lavagem do marquetingue comercial. Por exemplo, Santo Natal, Feliz Natal, Festas Felizes, por aí fora…
Por que não dizer e fazer, perdoo-te, dou-te a minha amizade em troca de nada, és tão amigo que tenho de te dizer que o és e agradecer-te, embrulha-me no teu casaco pois tenho frio, gosto de ti, amo-te...
Beijos e abraços de Paz para os amigos que gostam de mim, que me amam.

hajota