terça-feira, 2 de abril de 2019

Humano Ofício II



Mas a manhã não joga ao pião,
nem a brincar se abalança:
o dia corre, a tarde já não tem pressa.

Nuno Júdice, O Mito de Europa, 
(do poema Manhã de Inverno com Sol)



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foto minha


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O humano ofício é chegar à perfeição
à arte!
do afago das cerdas 
que varre o caos da configuração
rectangular
Não se espantem as páginas
no vazio estéril do olhar 
os olhos fogem incontidos para o finito
da noite e do dia da rotação circular
são planos em translação


hajota

segunda-feira, 18 de março de 2019

O Humano Ofício I


Manhã               

Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A fescura do centro

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro

Sophia de Mello Breyner Adresen,
Livro Sexto




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Anish Kapoor, Flesh, maqueta  (foto minha)



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O humano ofício é chegar à perfeição
à utopia
em poema de quadros pintados de vida
na identidade das linhas digitais
que se enleiam e desenleiam
nos dedos da mão
na cromatografia
de almas em transfiguração
da paleta de cor firmada em palma:
poema de estrofes varadas por um fio
que leva até ao fim em glória ou perdição


                  hajota

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O que é a vida




        Entrementes
os sulcos do tempo
do verbo acabar
do paquiderme olhar


Foto de oscar ciucat


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nós
em rotação circular
a medir o tempo de jornada
na alternância da luz e da noite
enquanto sístoles no espaço sideral
deuses por hábito sentados
na elíptica rota (in)finita
espreitando à janela
o que é senão 
queimar
energia
solar
?


         hajota


     

sábado, 26 de janeiro de 2019

Espaços e ficções



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Não me exijam
que diga
o que não digo

M.ª Teresa Horta, Estranhezas, 
 início de Questões de Princípio 


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busca pólos 
busco 
ainda o tom  
contacto pólo
tacteio
apresso a luz
curto circuito

hajota

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Akvarell 1982, Navle Skodar i halvlit
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Aqui neste ancoradouro sentado
lugar de ver sem muro
tudo o que está e o que não está:
passado presente e futuro

Cadeiras mesas copos chávenas
e o éter de etílicos cheiros saturado
e perfume suado do convívio íntimo
animal o velho e o lavado

e nuvens de fumo espiralado
das chaminés da cavernosa alveolar
adensando tenebroso o cinza do céu
à espera da redenção duma corrente de ar

E vejo fantasmas pessoas
sem que o saibam já ausentes
e a ficção dos maduros pausada
de sorrisos contidos à mesa rentes

e os conformados de etiqueta comum
e os cínicos na contrafacção do riso
de brilho sacana pregando ladaínhas
de descaramento escarninho

e jogadores de moedinha jocosos
ao pôr do sol de ambições incríveis
a afogarem-se verdes os invejosos
em queda  nos abismos do desespero

Vejo enfim  as puras da alegria
descuidada ainda ingénuas figuras
do devir que sobem à tona sem suspeita
de irem repetir guiões iguais amanhã


hajota

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Ano 2019


A primeira folha a ser escrita está a chegar ao  fim. Faltam 364 em branco a crescer. Que saibamos, dia a dia, fazê-lo. Com saúde alegria. Tudo o resto é acessório, mas cada um inclua aquilo que lhe der mais jeito.
Beijos e abraços a todos os amigos que por aqui passam.


paul klee_diário de um artista



dois mil e dezanove.
o ano é bom, ímpar,
de nome e ciclos solares.
depende é do diário
que se lhe põe em cima
que faz o calendário.
que não sejam azares.

é escrever paz amor saúde e 
€€€ a receber e dar,
em função do corpo e do espírito, 
à medida do que cada um precisar.



hajota

domingo, 23 de dezembro de 2018

Adorando andorinhas


A todos os amigos e seguidores deste blogue desejo as maiores felicidades nas suas vidas pessoais e familiares, especialmente nesta quadra festiva de Natal e Ano Novo.





    Natal quêbê       
Natal quanto baste a cada um!
É melhor todos terem algum
Do que não haver nenhum

Que o Homem veja o que faz
Para que se conserve a Paz

hajota





Adorando andorinhas 
tão antigas as memórias
nozes bolos avó com tempo
e carrapito preto preso ao gancho
de tartaruga (plástico não havia)
o glaucoma embaraçado no fumegar do chá

As vidraças embaciadas
e a gente entretida a doces marmeladas
abria folhas a dedo
na tarde deformada lá fora

quando no beirado os ninhos já
gelados de saudade dos bicos o barro
o bairro inteiro desabituado devoluto
carente de acrobacias os voos picados
do céu à calçada rasantes 
que se alevantava
até ao poiso no cobre que morria

na janela da sala deslumbrada
os olhos ainda as seguem na imaginação


hajota

domingo, 9 de dezembro de 2018

O Crepúsculo Azul



...
- A esperança resiste sempre
e onde está a minha doutor, caiu-me um dia destes, não torno  a encontrá-la, se calhar rebolou para debaixo da cama ou sumiu-se para sempre numa frincha qualquer, os soalhos não são feitos de tábuas, são feitos de intervalos nos quais também a vida se some e é inútil procurá-la de gatas, descobre-se um elástico, uma tampa de caneta, moedas já sem valor às vezes mas a esperança perdeu-se"...

António Lobo Antunes, Para Aquela Que Está Sentada No Escuro à Minha Espera


-o-o-o-o-o-o-



Imagem minha


-o-o-o-o-o-o-

Ainda por cá ando e,
a propósito de cores,
perco o juízo pelas bermas
do caminho que por mim passa,
numa ilusão caleidoscópica:
enquanto a folha cai
o tempo que se tem vai

Sei que é preciso saber 
mas não há ciência, que investigue, afirme, guie,
peremptorius,
a acção paradoxal da inacção,
no entanto sei que é preciso esperar
Esperar…

pela hora azul quando se cai
do deslumbramento da perfeição
acabada no instante que sublima 
a beleza de tudo o que nasce
se define e definha

Ainda cá ando e espero
e delecio-me na dualidade 
da cor que verbalizo a caminho
nas alamedas da insignificância 
definitiva de - que remédio

Perco o juízo pela hora crepuscular
Azul


hajota