quinta-feira, 16 de abril de 2020

Entre margens nado


imagem colhida na web





Dum "Mundo do Fim do Mundo"
Luís Sepúlveda 
- RIP








~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~



Foto minha


Na pedreira das encruzilhadas
ainda há almas grandes mas
eu rio rio da força das águas
que me percorrem e afundam

Num limbo suspenso de resgate
entre margens nado e alguém
carrega às costas esforçadas
os blocos de Sísifo
- a fome e a sede do Mundo 
Há contudo um manto de neblina húmida
e fria a embotar-me a clarividência das ideias
Tão difícil é discernir no crivo
a Verdade destes dias de chumbo
de densidade dobrada

Tão pesados são e tão
nítida a volatilidade do tempo

hajota

23 comentários:

  1. Intensos teus versos, Agostinho! Linda poesia! abraços, chica

    ResponderEliminar
  2. Alma grande é a do Poeta!

    (muito lindo. muito angustiante. muito angustiado...)

    Beijinho.

    ResponderEliminar
  3. Sim, estamos vivendo um pesadelo, angústia, insegurança...nossas almas estão no pior dos inverno, pois muito pouco sabemos. Torço para que venha logo uma primavera florida e que traga um renascimento, uma paz para o mundo. Éramos felizes.
    beijo, belíssimo poema.

    ResponderEliminar
  4. Dias de chumbo que vivemos na penumbra,
    no medo de ver luz
    de sentir o calor do sol
    acariciando-nos a pele.


    Medo, solidão, incerteza.

    E neste confinar de mágoas
    vamos fenecendo.


    Grande Poeta Agostinho.
    Um grande abraço!

    ResponderEliminar
  5. Há, haverá sempre a dor.... mas viverá sempre na memória... e o Mundo renascerá como a Fénix e voltará a ler " romances de amor"...
    Lindo...
    Beijos e abraços
    Marta

    ResponderEliminar
  6. Nadar entre margens. Carregar aos ombros o pedregulho de Sísifo, como se fosse a fome e a sede do mundo. Nestes dias chumbo sabemos quanto somos frágeis e fortes, inseguros e determinados…
    Um poema muito expressivo, meu querido Amigo Agostinho.
    Também senti muito a morte de Luís Sepúlveda. Guardo no coração as palavras que ele escreveu e que pude ler.
    Um beijo.

    ResponderEliminar
  7. hajota

    uma homenagem com um poema denso dorido e verdadeiro
    dias de chumbo de medo e dor
    incerteza do que virá
    e uma esperança cada vez menor

    um poema brilhante e duro mas relista

    um bom final de semana

    beijinhos

    :(

    ResponderEliminar
  8. Nem os poetas se salvam da angústia. Sobretudo quando os dias são de densidade dobrada! Mas eles têm também a capacidade de ver a luz ao longe... Bela homenagem a Sepúlveda, exímio na arte de induzir sonhos!

    ResponderEliminar
  9. poema lapidar, caro Agostinho
    os dois últimos versos "marcam"
    e ficam a tilintar como cristal fino

    abraço

    ResponderEliminar
  10. Mas as palavras, firmes como rochas que não murcham nem sob a água e nem sem a água, permanecerão. Um abraço.

    ResponderEliminar
  11. As cinco últimas linhas, em especial... traduzem na perfeição, o espírito destes dias pesados... em que, no meu sentir, quando páro mais um pouco... só me dá para um dormir nervoso, feito de cansaço, stress... e em modo de alheamento automático!... Tinha planos para esta quarentena... de descansar... ler... ver filmes... qual quê?... Quem consegue?... Eu não!...
    Sempre em modo alerta, todo o dia!... Entre o limpa aqui, e esfrega acoli... compensados com um espirro ou uma tosse, ocasional, da senhora dona mãe... que até se me faz dar quase uma coisinha má... mais depressa a mim, do que a ela!... :-))
    Enfim!... Inquietações do presente... de quem a falta de oxigenação em condições, sem ser com máscara a tapar o nariz, ao ar livre... até se me fazem da cabecita, andar a bater mal...
    Sepúlveda... que parece ter despertado a emergência do nosso estado... e Estado... que praticamente logo a seguir ao encontro literário, da Póvoa do Varzim... assim o declarou... e uma das muitas vitimas, desta bichice implacável, que nos tornou a todos, os potenciais piores inimigos, dos que nos estão nas imediações... mais chegados, ou mais desconhecidos...
    Gostei imenso, deste poético, e realístico sentir... com que me identifico... em que à margem dos dias... nadamos... sentindo que a qualquer momento, nos afundamos...
    Mas... onde será que fica o botão do OFF, deste nosso filme, autobiográfico, de constante suspense? Queria fazer um REWIND para aí, há uns 3 meses atrás... vá lá, há 6... porque a partir daí, certamente, já a bichanice, teria sido inventada/criada/nascida... mas mal aparecida e parida... foi com toda a certeza... esta filha duma micose, nascida debaixo da asa de um qualquer surrento e sarnento morcego!...
    Enfim!... Bora lá ir navegando à vista... dia a dia... na expectativa de que o barco, onde todos estamos, não encalhe, não seja o Titanic, mas antes seja o Seixalense, ou o Sintrense, ou outro cacilheiro que nos valha... e que garantidamente nos leve a outra margem, um bocadito ali... mais à frente... e sem meter muita água!...
    Beijinhos! Feliz domingo!
    Ana

    A foto... está muita boa!!! A diagonal escolhida... mesmo feita a régua e esquadro!... Acho que anda por aqui, um belo dum fotógrafo, muito bem disfarçado... nem que seja em modo de pijama!... :-))

    ResponderEliminar
  12. Confesso que hoje, verdadeiramente, sinto o peso da clausura - é o primeiro aniversário da minha filha (desde que ela nasceu) que passo longe dela, que não lhe posso dar aquele abraço apertado...
    Os outros dias passam-se. A vida passa...
    Luís Sepúlveda também passou para outra dimensão, deixando um vazio difícil de preencher. Ainda bem que o recordou aqui.
    O poema é de excelência!

    Bom Fim-de-semana
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

    ResponderEliminar
  13. "ainda há almas grandes"

    Deixo um abraço

    ResponderEliminar
  14. E a margem comprimindo cada dia mais por aqui Agostinho
    Um 'salve-se quem puder', diante da insensatez política que os brasileiros desgovernados se juntam aos ignorantes e veem os dias passando e afunilando, sem solução a curto prazo.Pobre País tropical, meu amigo. O que alimenta é exatamente a overdose de sol que temos e acordamos com o brilho nas janelas.
    Como seu poema entendo que sim _é muito 'dificil discernir'... :((
    abraços e abraços (sempre assim, intocáveis) rs

    ResponderEliminar
  15. Uma bela homenagem a um escritor que admiro.
    E que ficará na nossa memória por muito tempo.
    O poema é excelente, parabéns pelo talento que as suas palavras revelam.
    caro Agostinho, continuação de boa semana.
    Abraço.

    ResponderEliminar
  16. Este poeta também é um Sísifo vergado à força de tudo o que é inevitável e mais poderoso que ele próprio, mas consegue renascer e salvar-se pela força das palavras que o trazem até à margem...belíssimo e mais diria...
    beijinho amigo

    ResponderEliminar
  17. Que lindo poema, que escritor perdeu-se!

    ResponderEliminar
  18. Passando a fim de desejar que tenha um dia abençoado e elogiar este poema lindissimo que nos oferece
    Para quando nova publicação?

    Cumprimentos poéticos

    ResponderEliminar
  19. A neblina húmida acabará por ser afastada.

    Grande perda a morte de Luis Sepúlveda.

    Saúde e muitas saudades

    ResponderEliminar
  20. Agostinho,
    Até os deuses ficariam surpreendidos com estes "dias de chumbo de densidade dobrada". Nem sei que te diga, amigo, apenas que entendo muito bem o aparente avariar da bússola.

    Grande abraço

    ResponderEliminar