quarta-feira, 17 de abril de 2019

O Humano Ofício IV



Ali vimos a veemência do visível
O aparecer total exposto inteiro
E aquilo que nem sequer ousáramos sonhar
Era o verdadeiro

Sophia de Mello Breyner Andressen,
Navegações



oooooOOOooooo




mark rothko





oooooOOOooooo



O movimento impresso de luz percorre
a circular jornada na ecliptica vital
A luz cega de espanto
o simples e o extravagante
e a gradação da sombra seca o tempo
Por isso o ouvido se fixa
no gesto largo do pincel batuta
para que harmonia se faça
a cada figuração
o homem

hajota

terça-feira, 9 de abril de 2019

O Humano Ofício III


Beijo

Num instante
olhos nos olhos
um céu incendiado

Fechados

E por sorte
o fenómeno ocorre
espontâneo tão bem

também
quando chove:
o mesmo céu


hajota


oooooOOOooooo



Foto: Sebastião_salgado


oooooOOOooooo



A figura define-se na devassa
fibra a fibra
do incorpóreo impalpável
a princípio
pincelada a pincelada
de emoções sentimentos diluídos
na pré derme dos fluídos
até à consistência espessa
da força da forma do volume:
corpos coloridos de vida


hajota

terça-feira, 2 de abril de 2019

Humano Ofício II



Mas a manhã não joga ao pião,
nem a brincar se abalança:
o dia corre, a tarde já não tem pressa.

Nuno Júdice, O Mito de Europa, 
(do poema Manhã de Inverno com Sol)



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foto minha


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O humano ofício é chegar à perfeição
à arte!
do afago das cerdas 
que varre o caos da configuração
rectangular
Não se espantem as páginas
no vazio estéril do olhar 
os olhos fogem incontidos para o finito
da noite e do dia da rotação circular
são planos em translação


hajota

segunda-feira, 18 de março de 2019

O Humano Ofício I


Manhã               

Como um fruto que mostra
Aberto pelo meio
A fescura do centro

Assim é a manhã
Dentro da qual eu entro

Sophia de Mello Breyner Adresen,
Livro Sexto




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Anish Kapoor, Flesh, maqueta  (foto minha)



                                                                  ************



O humano ofício é chegar à perfeição
à utopia
em poema de quadros pintados de vida
na identidade das linhas digitais
que se enleiam e desenleiam
nos dedos da mão
na cromatografia
de almas em transfiguração
da paleta de cor firmada em palma:
poema de estrofes varadas por um fio
que leva até ao fim em glória ou perdição


                  hajota

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

O que é a vida




        Entrementes
os sulcos do tempo
do verbo acabar
do paquiderme olhar


Foto de oscar ciucat


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nós
em rotação circular
a medir o tempo de jornada
na alternância da luz e da noite
enquanto sístoles no espaço sideral
deuses por hábito sentados
na elíptica rota (in)finita
espreitando à janela
o que é senão 
queimar
energia
solar
?


         hajota


     

sábado, 26 de janeiro de 2019

Espaços e ficções



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Não me exijam
que diga
o que não digo

M.ª Teresa Horta, Estranhezas, 
 início de Questões de Princípio 


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busca pólos 
busco 
ainda o tom  
contacto pólo
tacteio
apresso a luz
curto circuito

hajota

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Akvarell 1982, Navle Skodar i halvlit
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Aqui neste ancoradouro sentado
lugar de ver sem muro
tudo o que está e o que não está:
passado presente e futuro

Cadeiras mesas copos chávenas
e o éter de etílicos cheiros saturado
e perfume suado do convívio íntimo
animal o velho e o lavado

e nuvens de fumo espiralado
das chaminés da cavernosa alveolar
adensando tenebroso o cinza do céu
à espera da redenção duma corrente de ar

E vejo fantasmas pessoas
sem que o saibam já ausentes
e a ficção dos maduros pausada
de sorrisos contidos à mesa rentes

e os conformados de etiqueta comum
e os cínicos na contrafacção do riso
de brilho sacana pregando ladaínhas
de descaramento escarninho

e jogadores de moedinha jocosos
ao pôr do sol de ambições incríveis
a afogarem-se verdes os invejosos
em queda  nos abismos do desespero

Vejo enfim  as puras da alegria
descuidada ainda ingénuas figuras
do devir que sobem à tona sem suspeita
de irem repetir guiões iguais amanhã


hajota

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Ano 2019


A primeira folha a ser escrita está a chegar ao  fim. Faltam 364 em branco a crescer. Que saibamos, dia a dia, fazê-lo. Com saúde alegria. Tudo o resto é acessório, mas cada um inclua aquilo que lhe der mais jeito.
Beijos e abraços a todos os amigos que por aqui passam.


paul klee_diário de um artista



dois mil e dezanove.
o ano é bom, ímpar,
de nome e ciclos solares.
depende é do diário
que se lhe põe em cima
que faz o calendário.
que não sejam azares.

é escrever paz amor saúde e 
€€€ a receber e dar,
em função do corpo e do espírito, 
à medida do que cada um precisar.



hajota