sexta-feira, 7 de março de 2014

Portugal felizmente


http://www.cm-barcelos.pt/


felizmente, não há corrupção
em Portugal
a seriedade dos de cima
deixou-a na Man Ferrostaal

felizmente ainda há ricos
em Portugal
dão sopa e estima
ao irmão que passa mal

felizmente ainda há classe
nos salões de Portugal
onde há gente que anima
para ver a cara no jornal.


hajota

Nunca viste, ó parvo?

Dulcinea de Salvador Dali

era uma força abrasadora da natureza.
com passos gemidos descia a rua em tangos
de movimento arrastado.
uma exaltação de saturada beleza,
do peito brotavam morangos
num balouçar ritmado.

o rapaz, encostado à esquina do desejo
de olhos assestados no refluxo
daquele poema de luxo,
sentia o cavalo a galope o sangue a ferver,
suspenso, em apneia
do perfume de dulcineia.

2011
hajota 

quarta-feira, 5 de março de 2014

Vou de saída



Onze Verões caldos, 
tórridos,
a terra um pó, uma secura.
Queimam primaveras
sem esperas,
mal encetadas,
brotando delas amores
da sua candura imolada
flores ao mundo dadas. 

Roubam-lhe a seiva e frescura
do sol que trazia na manhã.
Doze, tantos 
rebentos de doçura
nascidos da maçã,
espia pecados a mais pura.

Secam-lhe as fontes no Outono.
Nascem-lhe sulcos de águas
trazidas nas noites sem sono
trabalhos dores e mágoas
traçando os destinos no decágono.

Perdida no frio do Inverno
sem nada mais para dar
com a alma de dor roída
pegou na trouxa, já sem ar
disse: vou de saída.
No olhar ternura, de saída.


2012
hajota

terça-feira, 4 de março de 2014

Crimeia e Ucrânia

Está aqui um problema bicudo?

A Rússia sempre teve fronteiras flutuantes. Não nos esqueçamos que tem no seu ADN a ambição de potência imperial. E, se a perestroika deixou muita gente incrédula sem perceber o desmoronar do modelo URSS, o certo é que a Rússia se adaptou às circunstâncias e ao tempo. Aí está de novo vigorosa a tirar partido no jogo do xadrez internacional.

Vimos o que se passou, e ainda passa, na Síria. O acordo de destruição das armas químicas foi alcançado para proveito dos EUA (que assim ficou bem na fotografia) mas sobretudo da Rússia que tem pedras dentro da sua bota para resolver. Os americanos, não os EUA, estão a ficar fartos de guerra e, por isso, não vão arranjar outro atoleiro tão cedo.

Na Europa, a UE é a Alemanha que já não pode ganhar guerras, não tem como as fazer e sempre as perdeu mesmo quando era uma potência militar. Nem a Europa, no seu todo, conseguiria mobilizar a população para entrar num conflito armado, porque a cultura dominante tem outra matriz: ninguém consegue calçar botas às gerações atuais. A França é um bluf, tirando umas sortidas na África subsariana.

A Europa tem é vocação para se submeter. Foi durante o século XX um “protetorado” americano, amigo e na segunda metade um tampão ao “expansionismo soviético” no mundo. Se a Europa se autonomizar dos EUA por sua iniciativa ou se os americanos deslocarem as suas prioridades para o pacífico, onde as coisas mexem e onde poderá ganhar a lot of money,  a “velha senhora” vai sentar-se ao colo da Rússia.

Quanto ao que interessa, agora: a Crimeia democraticamente, por referendo, escolhe ser território autónomo russo; a Ucrânia fica nas mãos do diabo. O futuro poderá passar pelo retalhar aquilo em talhões, como aconteceu na ex-Jugoslávia.

Será que a EU vai pagar a conta do gás dos ucranianos diretamente à Russia?


Oração de um condenado



dizem-me que Cristo chegou
com tudo feito aos trinta
e eu? neste lugar a marinar,
sem ter onde pisar,
sem presente nem futuro para me salvar?

bem sei que gastei
meses dias horas
acreditando em promessas fatais
em inutilidades sociais,
com impostos taxas e rendas
acima das minhas possibilidades!

sublimado das estatísticas oficiais
para cortar nas gorduras
eu, que sou pele e osso
querem agora matar-me.
ou será por não gastar?
o que vai dar ao mesmo.
serei um equívoco?

como hei de comprar
o sonho e ar para respirar
que meses dias horas preciso
para também ter tudo feito?
que juros terei de pagar aos agiotas, Senhor?
será que são acima das minhas possibilidades?

Cristo morreu aos trinta, por nós,
e eu? morro por quem?

2014
hajota

segunda-feira, 3 de março de 2014

História de embalar

picasso_paul_drawing

Por que razão ou sorte
  tu – eu - bates à porta?
mão morta mão morta ...
um tempo distante
que presente faço.
em súplica de mel
subindo ao regaço
numa sedução irresistível,
irrecusável
de menino, tu, e eu quase velho
à espera duma história
do fundo da memória
vai bater àquela porta...


tu, ontem, quem está lá?
eu, amanhã haverá?
mão morta vai...





2011
hajota

sábado, 1 de março de 2014

Águas



As margens definem o ser
que das águas cruza a fronteira,
em águas se rompe inteira
a paixão e o sonho de ter
o mundo, na aventura
de rasgar a terra, dura
esperança de vencer
a torrente de águas
que nascem das mágoas
sentidas por todo o ser.


2011
hajota